quarta-feira, 19 de março de 2014

Educação Escolar de Pessoas com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção -

A educação de pessoas com surdez vem sendo fruto de muitas reflexões e de embates políticos e epistemológicos entre gestualistas[1] e oralistas[2], que associam os resultados escolares às práticas pedagógicas adotadas por uma ou outra concepção. De acordo com Mirlene Damázio e Josimário Ferreira (2010), enquanto as discussões ficam centradas na aceitação de uma língua ou de outra, as pessoas com surdez não têm o seu potencial individual e coletivo desenvolvido. Mais do que uma língua, as pessoas com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores, que desafiem o pensamento e exercitem a capacidade perceptivo-cognitiva. Para isso, percebemos a necessidade da construção do Atendimento Educacional Especializado para pessoas com surdez baseada na Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, pensando na pessoa com surdez como ser biopsicossocial, cognitivo, cultural e oferecendo novas possibilidades para essas pessoas.
Não se admite mais embates entre gestualistas e oralistas centralizando o problema na língua. Segundo os autores, o problema da educação das pessoas com surdez não está na língua, mas na qualidade do que se aprende e na eficiência das práticas pedagógicas. Não podemos continuar centrados nas duas correntes mencionadas, pois o sucesso ou fracasso escolar está enraizado nas práticas educacionais. É preciso que as práticas de ensino e aprendizagem na escola comum apresentem caminhos consistentes e produtivos para a educação de pessoas com surdez, assim como afirmam Damázio e Ferreira (2010):

Neste ponto, uma nova política de Educação Especial na perspectiva inclusiva, principalmente para pessoas com surdez, tem se tornado promissora no ambiente escolar e nas práticas sociais/institucionais. Porém, por mais que as políticas estejam já definidas, muitas questões e desafios ainda estão para serem discutidos, muitas propostas, principalmente no espaço escolar, precisam ser revistas e algumas tomadas de posição e bases epistemológicas precisam ficar mais claras.


É nessa perspectiva que a nova política de educação no Brasil organiza-se com a intenção de superar a visão fragmentada do homem, da sociedade, da cultura e da linguagem.
Essa atual política coloca em cena a pessoa com surdez e seu potencial, adotando a abordagem educacional por meio do bilinguismo. Legitima-se essa abordagem fazendo-se necessária a aplicabiblidade da obrigatoriedade dos dispositivos legais do Decreto 5.626 de 5 de dezembro de 2005 que determina:

O direito de uma educação que garanta a formação da pessoa com surdez, em que a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa, preferencialmente na sua modalidade escrita, constituam línguas de instrução, e que o acesso às duas línguas ocorra de forma simultânea no ambiente escolar, colaborando para o desenvolvimento de todo o processo educativo (DAMÁZIO e FERREIRA, 2010).


Nesse contexto, justifica-se também a construção do Atendimento Educacional Especializado para pessoas com surdez por meio da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, que disponibiliza serviços e recursos. Esse atendimento visa cumprir a função de organizar o trabalho complementar para a classe comum, com vistas à autonomia e à independência social, afetiva, cognitiva e linguística da pessoa com surdez na escola e fora dela.
Segundo DAMÁZIO E FERREIRA (2010), a organização didática do AEE PS é idealizada mediante a formação do professor e do diagnóstico inicial do aluno com surdez, em seguida, o professor deve elaborar seu plano de ação do AEE, envolvendo três momentos didático-pedagógicos:
1.      AEE em LIBRAS, em que todos os conhecimentos dos diferentes conteúdos curriculares, são explicados nessa língua de forma antecipada a ministração desses assuntos em sala de aula comum;
2.      AEE para o ensino de LIBRAS, no qual os alunos com surdez terão aulas de LIBRAS, favorecendo o conhecimento e a aquisição, principalmente de termos científicos, realizado pelo professor/ou instrutur de LIBRAS, preferencialmente surdo;
3.       AEE para o ensino da Língua Portuguesa, no qual são trabalhadas as especificidades dessa língua para pessoas com surdez, realizado por uma professora de Língua Portuguesa, graduada nesta área, preferencialmente. Este momento deve ser orientado pelo bilinguismo, sendo considerado a Libras e Português escrito como línguas de instrução dos alunos com surdez.
Enfim, de acordo com os autores, nesse processo educativo de contatos humanos, a educação no AEE PS significa preparar para a individualidade e a coletividade, provocando um processo comunicacional-dialogal-global, buscando a superação da imanência, da imediaticidade e buscando a transcendência do social, do cultural e do histórico-ideológico, com ruptura de fronteiras, e deflagrando uma sociedade mais solidária, fraterna e humana, em que os saberes não aprisionem o corpo e a mente ao poder, mas possam liberá-lo.


 REFERÊNCIA:

DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo; FERREIRA, Josimário de Paula. Educação Escolar de Pessoas com Surdez - Atendimento Educacional Especializado em Construção. Revista Inclusão: Brasília: MEC, V.5, 2010. p. 46-72.


[1]  Método de ensino, para pessoas com surdez, no qual se defende que a maneira mais eficaz de ensiná-los é através de uma língua gestual ou língua de sinais, no Brasil.
[2] Técnica pedagógica para pessoas com surdez que enfatiza o ensino da língua oral do seu país, para assim integrá-los a comunidade ouvinte.