A discussão sobre a inclusão
escolar vem sendo objeto de interesse de muitos estudiosos. E para nós não
poderia ser diferente. Próximo ao término de mais uma etapa em nossas vidas,
muito oportuno foi refletir sobre a necessidade de enxergarmos a totalidade das
pessoas, deixando a superficialidade com que muitas das vezes nos relacionamos
com o nosso próximo.
Lendo o texto “Modelo dos
modelos” de Ítalo Calvino, me lembrei exatamente como iniciei este curso –
ARCAICA! Assim como era o senhor Palemar
em algum momento de sua vida, mergulhei nas amargas águas dos padrões e das
regras. Por um longo tempo, ser igual, ser uniforme e coeso era sinônimo de
normalidade, e fugir disso era simplesmente um defeito e tornar-se inútil. Muitas
de nós estávamos submersas nesse conservadorismo onde insistíamos na eliminação
das diferenças para melhorar a qualidade do ensino nas escolas. Essa maneira de
agir remete, entre outras formas de discriminação, à dificuldade que muitos
dentro e fora das escolas continuam tendo de conviver com pessoas que se
desviam um pouco mais da média das diferenças, conduzindo-as, desta forma, ao
isolamento, à exclusão. Assim como a regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando, nós também o
fomos. Percebemos o caminho da não categorização dos alunos em grupos
arbitrariamente definidos por perfis e avaliações padronizados, e visualizamos
um novo ambiente escolar que desafia as possibilidades de aprendizagem de todos
os alunos, onde as estratégias pedagógicas são adequadas às habilidades e às
necessidades de todos. Sinto-me dissolvida em mim mesma, momento esse posterior
a uma fase de desconstrução e de voltar-se para dentro de mim mesma e enfim “nascer
de novo”... Ah... Sr Palemar!!!!! Parece-me tão familiar, por alguns minutos não
sei mais quem és e quem eu sou... pois, apagar da mente os modelos e os modelos
dos modelos foi puramente encontrar a essência do Criador existente dentro de
mim. Quando Sr Palemar se depara “face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável”,
formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”, comparo isso com os
novos desafios das escolas nos dias de hoje, entre eles o de estabelecer
condições mais adequadas para atender a diversidade dos alunos que dela
participam. Assumir, compreender e respeitar essa diversidade é requisito para
orientar a transformação de uma sociedade tradicionalmente pautada pela
exclusão. Para alcançar essa qualidade na educação, há a necessidade de renovar
toda a estrutura educacional deixando para trás o ensino tradicional. Não precisamos
de mais leis, a construção de uma sociedade inclusiva vai além da teoria. A
importância da inclusão está relacionada com o respeito à diferença; somos
diferentes uns dos outros, e isso é o que nos torna iguais e humanos. A
inclusão escolar é uma realidade e vai além de uma simples matrícula, existe
toda uma complexidade, um novo modelo organizacional, professores comprometidos,
valorizando as diferenças, visando uma educação voltada para a igualdade. O
atendimento educacional por si só não garante a aprendizagem dos alunos,
mudanças são fundamentais dentro da escola.
Quanta
responsabilidade a nossa!
Enquanto professoras do AEE precisamos provocar o acesso
ao conhecimento, permitindo àqueles que passarão por nós sair de uma posição
passiva e “moldada” diante da aprendizagem para o acesso e apropriação ativa do
próprio saber. Aproprio-me das ideias do Palemar ”para fazer isto, melhor é que a mente permaneça
desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e
de princípios subentendidos e não demonstráveis” desta forma o professor
do AEE deve identificar e desenvolver estratégias educativas visando à superação
das dificuldades de aprendizagem dos alunos. Não basta garantir a
acessibilidade, é preciso criar as condições para que a escola se transforme em
espaço verdadeiro de trocas que favoreçam o estabelecimento dos pilares da
educação: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a
viver juntos. Isso significa criar as condições para que TODOS os alunos possam
atuar efetivamente na escola focando as dificuldades do processo de construção
do conhecimento para o ambiente escolar e não para as características
particulares dos alunos. A vida de Palemar se assemelha com a inclusão na
medida em que traduz a capacidade que temos em dar respostas eficazes à
diferença de aprendizagem dos alunos, considerando o desenvolvimento dos mesmos
como prioridade. Aprendamos a desejar, assim como Palemar, “uma grande variedade de modelos, se possível
transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se
adapte melhor a uma realidade que por sua vez seja feita de tantas realidades
distintas, no tempo e no espaço.” E experimentemos de fato fazer com que
pessoas saiam de seus casulos e descubram-se em lindas borboletas... é para
isso que fomos chamadas para libertar “cativos” e apresentar-lhes a boa-nova
que é não apenas a vida, mas vida em abundância.
VIVAMOS pois, o melhor desta
vida!












